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Acessibilidade: quanto custa no fim das contas? (por Ricardo Couto)

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Esse post faz parte do Mês da Acessibilidade aqui no Blog de AI: uma série de artigos sobre construir experiências que sejam acessíveis a mais usuários, e em novos contextos de uso. A ideia é encorajar mais designers a lerem, discutirem e promoverem Acessibilidade em suas empresas, comunidades e entre amigos.

Falamos com especialistas para entender se desenvolver um site/app acessível custa mais caro (ou não) que um não acessível.

O interessante é que todos eles apresentaram o processo de design acessível como um processo de usabilidade como outro qualquer- se pensado desde o início e por toda a equipe o impacto em relação à custos será bem pequeno e o impacto em relação à experiência do usuário, como sabemos, será significativo o suficiente para justificar o investimento.

O Ricardo Couto, fundador da Semantics, foi um dos palestrantes no Global Accessibility Awareness Day e falou sobre sua experiência desenvolvendo um projeto de acessibilidade para um banco.

Especialmente para a nossa série, ele contou mais detalhes sobre os projetos que desenvolveu e sobre os custos envolvidos. Para quem não esteve presente no iMasters, é uma ótima oportunidade de ter contato com o jeito acadêmico e ao mesmo tempo tão descontraído que ele tem de expor suas ideias :)

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Ricardo Couto_

Ricardo Couto[/caption]

Você já fez algum projeto acessível? Pode nos contar um pouco sobre ele?

Já fiz alguns. Já fiz sites de pequeno porte que precisavam ser adequados à normas brasileiras de acessibilidade e já fiz projetos conceituais para grandes instituições que demandavam acessibilidade ou tinham acessibilidade como sua base — como um portal de acessibilidade para um grande banco.

Basicamente não há diferença muito grande entre projetos acessíveis e não-acessíveis desde que se preocupe com isso desde o início. Se a acessibilidade é considerada um aspecto desejável ou um requisito do projeto e se tem isso em mente durante toda a execução e produção, muito pouco se altera no processo como um todo.

Projetar pensando em acessibilidade desde o início deveria ser tão comum quanto projetar pensando em qualidade de uso. No cerne da questão, são a mesma coisa.

Qual era a principal demanda do cliente em relação à acessibilidade?

A demanda geralmente surge por dois caminhos: estar dentro da lei ou querer atingir um público um pouco maior. A primeira razão advém do Decreto-Lei nº 5.296, que trata sobre acessibilidade, regendo que “[…] será obrigatória a acessibilidade nos portais e sítios eletrônicos da administração pública na rede mundial de computadores (internet)”.

Essa demanda eventualmente existe e parece muito com a dificuldade que as pessoas tiveram em usar cinto de segurança. No início era obrigatório e só por isso faziam — pra não serem multados. Depois de um tempo — apesar de continuar obrigatório, as pessoas passaram a usar entendendo que vale a pena usar. Não é mais por conta da multa.

Obviamente que a segunda motivação para essa demanda é muito mais interessante: não ser ingênuo e permitir o acesso amplo como um pré-requisito de projeto me parece inteligente, independente da atividade ou negócio.

Ser a favor deste público não é um ato de altruísmo ou respeito diferenciado. Basta entender que é um público que também compra, também consome serviços, é um público como outro qualquer e deve ser valorizado como tal. Existem tantas startups e negócios surgindo focados em 1 ou 2% da população. Não tenho aqui os dados exatos mas estamos falando de algo entre 2 a 5% da população.

Ultimamente muitas empresas tem se preocupado com usabilidade. Gestores de comércios eletrônicos arrancando os cabelos porque usuários não conseguem comprar por conta de uma falha de usabilidade ou de tecnologia. Seria interessante se soubessem que muitas pessoas deixam de comprar no seu e-commerce, não porque tenham dificuldades durante o uso, mas porque nem consegue acessá-lo.

Esse projeto saiu mais caro por ter que ser acessível? Por quê?

Existem duas situações de projetos importantes quando se fala em custo. Um é o projeto novo, algo que está começando e será construído do zero e outro é um projeto existente.

No caso de um projeto novo, praticamente não há custo adicional, pois se a acessibilidade é levada em consideração desde o início, não há re-trabalho. Se eu fosse dar um chute bem por alto do que seria o custo adicional, considere algo em torno de 5% de custo a mais por se considerar acessibilidade e isso pode chegar a zero dependendo da tecnologia ou ambiente do projeto. Por exemplo, acessibilidade em ambientes web são bem mais simples de se projetar e implementar do que acessibilidade em dispositivos móveis. Porém, algumas plataformas possuem níveis de acessibilidade bastante satisfatórios por padrão do sistema, como o iOS, por exemplo.

Já em projetos existentes, onde a demanda geralmente é algo como “preciso deixar esse site/plataforma/sistema/aplicativo acessível”, o custo é alto. Mas deve-se considerar que não é um projeto acessível, mas o próprio projeto é transformar em acessível. São objetivos diferentes, esforços diferentes. Logo, prazo e custo totalmente diferentes de um projeto novo. Um projeto desse tipo pode facilmente chegar na faixa de 20 a 40% do valor do projeto original.

Basta pensar numa situação hipotética: sujeito investe “x” reais para criar um e-commerce. Aí, certo dia, resolve que este e-commerce precisa ser acessível. O trabalho de análise da acessibilidade de cada página, do código gerado, da forma como as ferramentas assistivas interpretam aquele código, da acessibilidade dos elementos visuais para pessoas com baixa visão, idosos ou pessoas com limitações motoras é enorme. E estamos falando apenas na análise. Depois ainda entra todo o trabalho de re-projetar o que não está em conformidade ou adequado. Talvez a minha expectativa de 20 a 40% seja até baixa.

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Fora o custo, qual foi a maior dificuldade que você teve no projeto?

A maior dificuldade eu não vejo como custo mas sim com a falta de sensibilidade e empatia dos envolvidos. Quando um designer (visual) se incomoda porque você diz a ele que precisa de mais contraste, que um texto cinza escuro sobre cinza claro simplesmente não é acessível, isso é uma dificuldade. Ou quando você explica para um desenvolvedor que ele não poderá usar certa tecnologia (que facilita o trabalho ele) porque ela prejudica a acessibilidade e esse sujeito passa a te ver como “o chato da acessibilidade”, isso é prejudicial para o projeto como um todo.

Esse alinhamento deve existir para o bom andamento do projeto. É preciso sensibilizar as pessoas, nem que sejam os colocando lado a lado com pessoas que farão uso dos recursos acessíveis ou mesmo fazê-los usar o artefato digital como se fosse alguém que precise que o artefato seja acessível — como colocar alguém para navegar em um site apenas usando um software leitor de tela.

E quais vantagens você enxerga em ter feito o projeto assim?

Comercialmente, se terá acesso a um público mais amplo — essa deve ser a maior vantagem. É a mais clara, mais direta, não depende de ser “bonzinho” ou sensível às necessidades alheias.

Voltando à metáfora do cinto de segurança, acredito que poucos usariam o cinto diariamente se não fosse a alta multa imposta. Caso não houvesse multa, provavelmente quem usaria cinto diariamente seriam os que passaram por algum acidente automobilístico mais grave ou tiveram alguém próximo envolvido em um. Ou seja, só os que foram sensibilizados a usar, usariam. Apesar de terem sido sensibilizados da pior maneira possível. É até difícil estimar quantas vidas são salvas pelo uso do cinto de segurança. Da mesma forma, é quase impossível mensurar quantas vendas, acessos, downloads ou compras um artefato digital (seja site, e-commerce, aplicativo pra celular) são perdidas por falta de acessibilidade.

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Written by Paula Macedo

17+y humanizing technologies. Senior Design Lead at Nubank empowering people and fighting against complexity in finance services *Personal opinion only*

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