Como fui parar em UX?
Uma não tão breve história sobre os sinuosos caminhos da vida que me levaram ao design.
Comecemos do começo
Passei toda a infância respondendo à infame pergunta “o que você quer ser quando crescer?” de maneira muito segura: cientista. Porque eu passava mais tempo assistindo Discovery Channel do que deveria, transitei pelos mais diversos interesses: já quis ser paleontólogo (fase dos dinossauros e colecionador de rochas), egiptólogo (fase das pirâmides e “quem matou Tutankhamon?”) e astrônomo (fase “billions and billions”). Eu surfava a tendência temática momentânea do canal.
O impacto de assistir tanta televisão — além de fazer nascer em mim o medo irracional de ser abduzido por aliens — foi bastante positivo. Me tornei uma criança estupidamente curiosa. Ganhei um microscópio e passava horas fazendo experimentos com soluções extraídas de plantas. As mudanças ao longo dos dias eram registradas cuidadosamente e eu tinha até grupos controle. Nada mal pra quem tremia de pensar em um contato imediato de quarto grau.
A infância foi ficando para trás e eventualmente a semente da ciência germinou. Eu queria ser físico. Durante os anos que sucederam a entrada no Ensino Superior, consumi quantidades pouco normais de material sobre as ciências exatas. Eu não era particularmente brilhante mas cada dia me convencia mais de que eu nasci pra isso. Spoiler alert: ledo engano.
Fui parar na UNICAMP, onde finalmente cursaria Física. Não demorou muito tempo para perceber que algo errado não estava certo. A ciência e o Universo me fascinavam, supriam minha busca por respostas e instigavam minha curiosidade e criatividade. Mas com o meio acadêmico eu não me entendi.
Não demorou muito tempo para perceber que algo errado não estava certo.
A estranheza inicial do sistema foi substituída por decepção e essa não tardou a se converter em frustração. Assisti, pouco a pouco, aquele sonho desaparecer simplesmente porque eu sabia que não conseguiria ser parte daquele sistema.
Minha visão romantizada da busca por respostas e da universalidade do conhecimento não dialoga bem com o modelo moderno de produção acadêmica. Não demorou para que eu deixasse o curso pela metade. Uma escolha difícil que trouxe junto uma avalanche emocional.
E é aí que as coisas pararam de fazer sentido.
Agora é a parte do UX, né?
Calma, ainda não.
Depois de sair da Física, uma pergunta muito óbvia me tomou a mente: e agora? Eu larguei para trás algo que eu acreditava ser meu objetivo de vida. O que você faz depois disso? Bom, no meu caso, entrei em pânico e tomei uma decisão praticamente aleatória.
Eu larguei para trás algo que eu acreditava ser meu objetivo de vida. O que você faz depois disso?
Convencido de que eu precisava de um diploma do Ensino Superior para a próxima fase da minha vida — seja ela qual fosse — prestei vestibular novamente mas dessa vez para Ciências Econômicas.
Durante meu período conturbado na Física, integrei uma Empresa Júnior e eu realmente gostei de pensar sobre negócios. Empresas Juniores são imãs de dificuldades diversas e, apesar das eventuais frustrações, eu gostava de pensar para resolver problemas.
Cursar Ciências Econômicas quase parecia um caminho natural mas — sendo bem sincero — eu não cheguei a pensar muito a respeito. O ruído na minha cabeça ainda era alto demais para eu conseguir pensar com clareza.
Prometendo a mim mesmo ser a última vez que eu passaria por esses espasmos emocionais que as pessoas chamam de vestibular, concorri a uma vaga no curso de Ciências Econômicas da USP no campus mais quente sob a Anomalia do Atlântico Sul: Piracicaba. Alguns anos depois e cá estou, no terceiro ano do curso.
Eu já posso adiantar algo: eu não gostava da academia na Física e eu também não gostei da academia nas Ciências Econômicas. Foi ingenuidade achar que seria diferente — ou só o erro de sequer ter ponderado isso. A transição mostrou claramente o que incomoda: o sistema educacional como um todo. O “modelo de ensino” é mais folclore que prática.
Bom, daqui para frente as coisas finalmente começam a ficar interessantes (espero). Eu não queria mais ser físico e não queria trabalhar como economista. E eu não suportaria a ideia de tentar ir para outro curso — afinal, o problema que me causava gasturas ainda estaria lá. O que vai ser de mim?
Bom, agora tem que ser a parte do UX!
Tecnicamente, sim.
Eu não te contei mas desde a adolescência eu gostava de design. Bem, o que eu considerava design naqueles tempos imemoriáveis e o que eu considero design hoje são coisas de dimensões que não se tocam. Eu gostava das coisas bonitas que as pessoas faziam no Photoshop e eu tentava fazê-las também. Nada mais que isso.
Na época eu fazia assinaturas de fóruns e foi assim que me envolvi com Photoshop pela primeira vez. Acabei naturalmente evoluindo para layouts. Fazia tudo por diversão, abria a ferramenta e criava coisas que só minha mãe poderia gostar.
Eu me divertia bastante e saciava uma sede interior de criar. Mas UX e eu ainda não tínhamos sido apresentados e eu nunca pensei em fazer daquilo uma profissão. E por mais triste que seja admitir isso, conheci pessoas que eram muito melhores que eu e perto delas me sentia um patinho feio. Pensava que com certeza não tinha nascido para aquilo. Soma-se tudo e a conclusão era óbvia: um belo hobby e parou por aí.
Durante os anos seguintes, eu sempre me envolvi com algo relacionado a design — principalmente nas Empresas Juniores. Sempre que possível, eu me colocava à disposição para fazer materiais gráficos, sites, o que fosse. Fui mantendo esse hobby vivo conforme os anos passavam.
Enquanto membro da Empresa Júnior das Ciências Econômicas eu precisava constantemente procurar formas diferentes de abordar problemas que tínhamos e aí eu conheci o Medium por acaso. Foi o início de uma bela amizade. A princípio eu só queria melhorar a forma como nos comunicávamos e nos organizávamos na Empresa Júnior (sério, chega de responder “Ok” em e-mail pra confirmar leitura!) mas encontrei muito, muito mais do que esperava.
Eventualmente, procurando estratégias para melhorar nosso site esbarrei nesse tal UX e nessas tais estratégias para criar produtos e soluções digitais. De repente eu estava lendo compulsivamente sobre o assunto e achando aquilo tudo o máximo.
Pela primeira vez comecei a ver design como algo estratégico e racional ao invés de gradientes e teoria das cores. Lembro de ter pensado na época como as coisas evoluíram e tentei correr atrás do que perdi nesses anos — e foi bastante coisa, diga-se de passagem. E assim segui por semanas, lendo tudo que podia. Meu interesse crescia proporcionalmente à quantidade de material que eu consumia.
Foi natural começar a procurar conteúdo de UX fora do Medium. Particularmente gosto de podcasts e achei vários. Ouvir pessoas falando da área e conversando sobre o dia a dia delas e suas histórias foi realmente importante, além de divertido. Eu percebi que gostava daquilo e pensava até que me daria bem na área. Descobri também que UX é uma área que acolhe muitas pessoas de jornadas erráticas — como a minha. Isso também me trouxe um certo conforto. E assim renascia meu interesse em design, mas dessa vez focado na parte analítica e estratégica da coisa, na experiência.
Comecei a ir atrás de gente da área, mandar e-mails, fazer perguntas, bater papo. As pessoas, apesar de super ocupadas, foram sempre muito receptivas e me deram conselhos e insights valiosos. Não vou me extender citando todas as pessoas, mas espero que elas saibam que têm minha mais sincera gratidão e meu carinho.
Eu gostei muito do que aprendi, e aquela sementinha plantada pelo Medium sem querer já estava germinando. Apesar disso, a coisa toda não estava exatamente explícita na minha cabeça ainda. Havia outra questão que me faltava — mesmo que na época eu ainda não soubesse — para que a transição absoluta fosse realizada. Mas não demorou para isso acontecer.
Por motivos que fogem à compreensão humana, eu passava bastante tempo lendo sobre Front-End. Nunca tive interesse em me tornar um desenvolvedor mas por algum motivo eu gostava de ler sobre organização de código, boas práticas e semântica — principalmente semântica. Vai entender.
E aí algo aconteceu. Também por acaso, encontrei o canal DevTips do Travis Neilson. Fiquei algum tempo preso no vórtice do Youtube até que eventualmente encontrei um vídeo que pra mim não fui muito diferente de um tapa: My First Websites Were Horrible!
Talvez você já tenha entendido onde isso vai dar. Esse cara que eu acabei de encontrar começou a fazer alguns sites por conta própria mais ou menos na época que eu. Os trabalhos dele então não eram tão diferentes dos meus. Ele continuou nesse caminho e persistiu. Hoje, ele é um profissional realizado e com um leque de habilidades bastante refinado. Aí eu vi que eu não era um patinho tão feio quanto pensava. Foi o reality check que me faltava.
Nos próximos dias eu refleti bastante sobre a vida, o Universo e tudo mais. Pensei no que eu queria da minha vida e no que não queria. O vídeo foi o catalisador que me faltava. O último elemento que me segurava (esse de natureza emocional) havia sido transposto. Nesse momento a mudança se consolidou e eu estava decidido: eu vou trabalhar com UX.
Mas… por que diabos UX?
Pois é, por quê? Não teve clique, não teve chamado. Acredito que certas coisas têm que crescer em você — e esse foi o caso. UX é fantástico e ressoa comigo de muitas formas e em muitos níveis.
Você nunca vai ficar entediado porque as oportunidades são diversas. Em cada projeto você vai ter a chance de estudar algo diferente: seja um segmento inteiro de mercado, seja o comportamento de determinado público. A oportunidade de aprendizado e a variedade dos temas e problemas são algumas das poucas constantes e nada deixaria a minha curiosidade mais contente.
A multidisciplinaridade da área é outro ponto que merece destaque. Você pode estar hoje pensando em microcopy e amanhã em métricas. Hoje é teoria das cores que te ocupa a mente, amanhã é ter certeza que seu teste A/B tem significância estatística para justificar quaisquer mudanças. Será que essas ideias conversam com o modelo de negócio do cliente? As intersecções de diversas áreas simplesmente nunca param. Toda bagagem pessoal trazida para a carreira de UX é bem-vinda e vai eventualmente encontrar espaço pra se manifestar.
A liberdade de aprofundamento que se pode ter na área também tem um papel aqui. É possível analisar as soluções de maneira extremamente abrangentes, assim como também é possível projetar cada milissegundo de animações e analisar cada pormenor da experiência. Você pode ser um universalista ou um especialista absoluto em algo. E isso é ótimo. Essa ideia que sempre me atraiu para o campo científico e agora me atrai para o UX.
Existem ainda particulares da minha trajetória que também colaboraram grandemente. Eu realmente posso aplicar — de forma indireta, naturalmente — o que eu aprendi durante meus anos de faculdade. É claro que saber resolver uma equação de difusão térmica provavelmente não vai fazer maravilhas para a minha carreira em UX. Mas o que eu aprendi sobre economia,método científico, estatística e raciocínio lógico possivelmente irão.
A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original. — Albert Einstein
Obrigado pelo seu tempo e atenção. 👋