Onde está a diversidade nos times de design-produto?
Não está. Reconheça.
Por que não está? Mas Tod, quem ou o que é a causa?
O problema tá nos times, assim como na empresa. Tá na rua, nas escolas, no fato que a gente paga com cartão de crédito num pais de milhões de não-bancarizados, no fato que a gente gosta de ser servido as 2 da manhã com sorvete da noruega pelo delivery. O lance é estrutural e não tem uma causa específica. Mas vou tentar listar alguns pontos:
Porque como a gente contrata e avalia talentos hoje pouco tem a ver com a pluralidade de lentes e competência.
Porque a gente tem zero paciência ou empatia com nossos pares de negócio. Por que estar na mesa é prioridade em detrimento de ajudar a todo mundo andar junto.
Porque existe um abismo de diferença na ascensão de cargos e salários de designers brancos e negros – homens e mulheres.
Porque o que a gente reconhece e bate palma como negócios de “sucesso” prezam pela precarização do trabalho, crescimento acelerado, “alta performance”. Palavras que podem ser facilmente substituídas por preconceitos, sexismo e racismos disfarçados de cultura corporativa.
Porque um designer pleno pouco entende que – seu salário ja lhe confere um passaporte pra elite econômica do pais. E reclama que o produto que ele faz não é sexy.
Por que apesar do Brasil ser um pais negro – a gente ainda vê equipe só de brancos e majoritariamente homens.
Porque existe uma geração de líderes de produto que gerenciam pelo medo e tratam designers ou qualquer pessoa que traga uma lente diferente como “mais um pra encher o saco”.
Porque apesar de pregar empatia – a gente na verdade passa mais tempo tentando subir derrubando o outro.
Porque acessibilidade, inclusão, não é projeto social ou caridade.
Porque, convenhamos a gente ta resolvendo de verdade – de menos do que 5% da população brasileira.
Porque a gente quer mudar o mundo – mas só se for com design com estética europeia ou americana.
Quando isso acontece?
Todo santo dia 🤷🏽♀️
Quando gestor flexibiliza critérios de promoção ou contratação entre homens e mulheres.
Quando a gente não da nem oportunidade dos pretos e pardos e indigenas entrarem. Ou pior, uma vez que entram – não damos a minima oportunidade de participação ativa nos projetos. Quando a gente de propósito "junioriza" profissional que tem a cor de qualquer tom diferente da brancura.
Quando a gente não luta pra que esses mesmos juniores se desenvolvam. Quando a gente olha torto quando a mãe tem que sair mais cedo, pro profissional de mais de 40 no time…
Quando a gente ignora novos jeitos de fazer só porque são diferentes, locais. Quando a gente faz processo eliminatório com entrevista baseada em performance de inglês.
Quando a gente joga a culpa do baixo desempenho nas costas das pessoas eximindo a empresa da responsabilidade.
Quando a gente fala de designers pra designers sobre design e esquece que existe o mundo la fora. Fora do eixo Rio-São Paulo.
Quando a gente diminui as experiências de alguém ou apaga a representatividade do trabalho dela (ou dele) é diferente do nosso – seja produto ou consultoria.
Quando não se reconhece nem com um obrigada.
Quando a gente projeta pra uma internet que não existe. Quando a gente se aliena que as pessoas pegam busão, ficam na fila do banco e que a maior parte do uso delas da internet é pra mandar audio no "zap".
Quando a gente precariza (ainda mais) o mundo de minorias que já estão a margem da sociedade. Quando eu nego o direito de existir, de ir e vir e de ter um auxilio em tempos de crise. Com interfaces ou esquemas de trabalho.
Quando a gente prega o antifacismo nas redes sociais e na hora do “vamo vê” só da “leadismo” e “broderismo” na sala de reunião.
Quando a gente não democratiza o design. Quando a gente e embola o que a gente faz em palavras complicadas e desnecessárias.
Tá bom? Ou precisa mais?
Desenhar para inclusão plena – só existe quando você reconhece a exclusão que já existe , que ela é estrutural enos últimos 10–15 anos designers ajudaram a construir sistemas, esquemas de trabalhos, artefatos apps e sites que naturalizam e perpetuam uma série de injustiças sociais.
Reconhece. Trata as pessoas como pessoas.
Faça o que você pode, quando você pode. Comece pequeno, não engula que você não consegue mudar nada. E não fica pagando pau pra designer opressor. Resolveu pra um – estende o privilégio pra todos. Não me vem de empatia e micareta da diversidade e inclusão. Não passe pano. Não, não e não.